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Desenvolvimento Local
por Pedro Jofilsan

CONFLITO ENTRE TEORIA E PRÁTICA NA IMPLANTAÇÃO DE UM PROCESSO DE “DESENVOLVIMENTO LOCAL” NO NORDESTE
     
1 – Um impasse

 

O “Desenvolvimento Local” virou moda nos últimos 10 anos no Brasil e desde então nós passamos a testemunhar vários projetos espalhados por todo o País, principalmente no Nordeste. O que mais me intrigou nos meus primeiros anos de trabalho em um desses projetos foi a dificuldade que as pessoas tinham de acreditar na “filosofia” da ferramenta DL, muito mais do que a capacidade de compreender o processo.

 

Nas primeiras oficinas de sensibilização, não encontrávamos nenhuma dificuldade entre os participantes de qualquer nível social ou intelectual, pois a metodologia é simples e tem uma lógica justa e sedutora, principalmente para os menos favorecidos, que passam a sonhar com oportunidades viáveis de ascensão social e econômica.

 

Mas os sucessos efetivos de mudanças na qualidade de vida de comunidades e territórios eram pálidos, em comparação com o volume de investimentos realizados, financeiros e humanos principalmente. Conheci vários técnicos competentes, vindos das mais diferentes formações, como economistas, sociólogos, assistentes sociais, pedagogos, agrônomos, psicólogos, entre outros, comprometidos e entusiasmados com os resultados iniciais do processo.

As pessoas no Nordeste são dóceis e se deixam mobilizar com facilidade, o que já muito me encantou, mas hoje me preocupa. Enquanto os facilitadores estão à frente dos trabalhos mobilizando, animando e capacitando a comunidade atende bem. O processo emperra quando as lideranças locais precisam assumir a coordenação das ações e decisões desenhadas pelas comunidades e territórios.

 

Na década de 90, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) desenvolveu várias experiências em parceria com importantes organizações do Governo Federal, como Sudene, BNDES, Banco do Nordeste, INCRA, entre outros. Estive envolvido diretamente com dois desses projetos por 10 anos. Atuando especificamente no Nordeste, trabalhei em todos os Estado, incluindo o Norte de Minas que tem características climáticas e sociais semelhantes às do sertão. Quando surgiram as primeiras dificuldades e as reações das pessoas em assumir a coordenação das atividades, acreditei que era apenas despreparo técnico e falta de competência gerencial. Vieram então as capacitações gerenciais sem muitas respostas. Foi quando comecei a desenvolver um sentimento de que algo mais impedia o empoderamento das pessoas.

 

2 – A experiência da Espanha

 

Fui agraciado com uma ida à Espanha, para conhecer uma experiência exitosa. Estivemos em vários territórios, sempre acompanhados por Francisco Alburquerque, que nos contextualizava teoricamente em cada momento sobre a importância de desenvolver os “territórios socialmente organizados, vistos em função de suas capacidades para materializar as inovações e para gerar sinergias positivas entre os responsáveis pelas atividades produtivas, isto é, no conjunto do tecido empresarial”.  Ele comentava, como no seu livro Desenvolvimento Econômico Local, pagina 111 (editado no Brasil pelo BNDES):

“O conceito de espaço como suporte geográfico no qual se desenvolvem as atividades socioeconômicas costuma trazer implicitamente a idéia de homogeneidade, e as preocupações fundamentais a ele relacionadas referem-se à distância, aos custos de transporte, à aglomeração de atividades ou à polarização do crescimento. Mas, a partir da perspectiva do desenvolvimento local e regional, interessa-nos basicamente outro conceito diferente, qual seja o de ‘território’, que compreende a heterogeneidade e a complexidade do mundo real, suas características ambientais específicas, os atores sociais e sua mobilização em torno das diversas estratégias e projetos e a existência e o acesso aos recursos estratégicos para o desenvolvimento produtivo e empresarial. Em síntese, em face do conceito de espaço como contexto geográfico dado, interessa-nos ressaltar o conceito de território como ator do desenvolvimento.” (Incluindo tudo de bom e de aparentemente ruim, que faz parte da história do território e não pode ser deixado fora por uma intervenção de bisturi qualquer).
     
Uma conclusão importante, fruto da visita à Espanha, é que esse conceito de território, que ali se verifica, não seria possível se não fosse protagonizado pelos atores sociais locais. Quando o processo é coordenado por um interventor externo, um dos prejuízos é a falta de sensibilidade para compreender a importância da inclusão de todo tecido social no complexo de desenvolvimento do território.

 

 

3 – Desenvolvimento Endógeno: uma Estratégia de Ação para o Desenvolvimento Local

 

Em Fortaleza, no Ceará, eu tive o privilégio de participar de uma oficina com Antonio Vázquez Barqueiro, autor do livro “Desenvolvimento Endógeno em Tempos de Globalização”, editado em português pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2002, e ele dizia que

 “a  política econômica local está associada a uma abordagem de baixo para cima, na qual são os atores locais que desempenham o papel central em sua definição, execução e controle. Em suas formas mais avançadas, os atores locais organizam-se formando redes, que servem de instrumento para conhecer e entender a dinâmica do sistema produtivo e das instituições, bem como para conjugar iniciativas e executar as ações que compõem a estratégia de desenvolvimento local.”

Barqueiro, em seu livro acima citado, na pagina 29, nos diz também: “A teoria do desenvolvimento endógeno, diferentemente do proposto pelos modelos neoclássicos, sustenta que cada fator e o conjunto de fatores determinantes da acumulação de capital criam um entorno no qual tomam forma os processos de transformação e de desenvolvimento das economias. Esta é uma interpretação que contribui para o entendimento de como a interação entre esses fatores e os processos determinam a dinâmica econômica. Além disso, trabalha com a idéia de que a política de desenvolvimento local é capaz de viabilizar, de forma eficiente, uma resposta local aos desafios da globalização, o que converte a teoria do desenvolvimento endógeno em um instrumento para a ação.”

 

Nós concordamos com todo discurso de Barqueiro, em seu livro acima citado, e conhecemos experiências que comprovam essa realidade na Espanha. Estivemos: eu, Arturo Jordan, Marcos Alceu, Tania Zapata, entre outros, que aqui atuam nesta causa e conhecemos também outras experiências na Itália, em países da América Latina, inclusive o Brasil, é claro, e até na região Nordeste, apesar de sua triste história de colonização, mas... 


4 – Como fazer Desenvolvimento Local em uma região onde “Santo de Casa não opera Milagres”?

 

As dificuldades encontradas no Nordeste não são de ordem cognitivas, são, sim, de atitude em relação ao seu destino:

 

Olha lá vai passando a procissão,
Se arrastando que nem cobra pelo chão,
As pessoas que nela vão passando,
Acreditam nas coisas lá do céu,
As mulheres cantando tiram versos,
Os homens escutando tiram o chapéu,
Eles vivem penando aqui terra,
Esperando o que Jesus prometeu.

E Jesus prometeu coisa melhor,
Pra quem vive neste mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao Chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tou do lado de Jesus
Só que acho que Ele se esqueceu
De dizer que na terra agente tem
De arranjar um jeitinho pra viver.

Muita gente se arvora a ser deus,
E promete tanta coisa pro sertão,
Que vai dar um vestido pra Maria,
E promete um roçado pro João,
Entra ano e sai ano e nada vem,
E o sertão continua ao deus dará.
Mas se existe Jesus no firmamento,
Cá na terra isso tem que se acabar.   

 

Essa música de Gilberto Gil é uma pontuação da atitude, da postura do nordestino diante da vida. É uma denúncia do modelo mental fabricado para esse povo que continua “ao deus dará”, viciado com as esmolas dos políticos, como dizia Luis Gonzaga, esperando o que “Jesus” prometeu, responsabilidade de alguns que “se arvoram a ser deus”.  

 

Estive estudando sobre os modelos mentais que organizam a percepção dos nordestinos e acabei por fazer um levantamento a partir de quase 180 oficinas realizadas nos dez estados que fazem o Nordeste, num espaço de tempo de onze anos, envolvendo aproximadamente 6.300 pessoas dos mais diferentes níveis sociais e econômicos.

 

Todos nós temos modelos mentais, que são balizadores internalizados durante nossa formação, principalmente na infância, e que passam a influenciar nossa percepção de funcionamento do mundo. Os modelos mentais passam a determinar como e o que nós vemos. “Uma coisa que todo mundo sabe é que muitas idéias brilhantes nunca chegam a ser postas em prática”. Estratégias espetaculares deixam de ser colocadas em ação. Uma experiência-piloto prova que uma nova abordagem produz melhores resultados, mas tal abordagem nunca chega a ser difundida. Estamos chegando à conclusão de que os responsáveis por esse tipo de falha são os modelos mentais. Mais especificamente, novas idéias deixam de ser postas em prática por serem conflitantes com as imagens internas, profundamente arraigadas de como o mundo funciona, imagens que nos limitam a maneiras habituais de pensar e agir. É por isso que a disciplina de administrar modelos mentais - trazer à superfície, testar e melhorar nossas imagens internas do mundo – promete ser uma grande inovação na formação de “organizações de aprendizagem”.

Ninguém pode carregar uma organização dentro da cabeça – ou uma família, ou uma comunidade. O que podemos carregar são imagens, suposições e casos. Modelos mentais são temas de discussão de filósofos há muitos séculos, remontando no mínimo à parábola da caverna de Platão.
“A Roupa Nova do Rei” é uma história clássica, não sobre gente famosa, mas sobre gente presa a modelos mentais. A imagem que as pessoas tinham da dignidade do rei as impedia de ver que ele estava nu.


Modelos mentais podem ser simples generalizações do tipo “as pessoas não são dignas de confiança”, ou podem ser teorias complexas, como suposições que expliquem por que os membros de uma família agem de determinada maneira. Mas, o mais importante é saber que os modelos mentais são ativos – eles modelam nosso modo de agir. (Peter Senge – “A quinta Disciplina”, Editora Best Seller)

Uma das dificuldades no trabalho com pessoas comuns nos territórios foi encontrar um instrumento que nos ajudasse a identificar os modelos mentais das pessoas nos grupos. Entre uma tentativa e outra surgiu a idéia de levantar, junto aos participantes de um grupo, a seguinte questão: “Quais os três provérbios populares mais escutados  em sua infância e que influência eles provocam na sua vida ?” Foram fantásticos os comentários e as identificações com situações do dia-a-dia de trabalho e, principalmente, em relação aos pressupostos que fazemos dos colegas, chefes, subordinados, clientes, enfim, de pessoas.

 

Passei a fazer esse levantamento em praticamente todas as oficinas e, daí para frente e em pouco mais de dez anos, depois de uma tabulação a partir de minhas anotações, descobri uma explicação para a dificuldade no trabalhar o empoderamento das lideranças nas comunidades e nos territórios e a resistência em assumir a liderança do processo de desenvolvimento de seu próprio território.
Surpreendentemente 82% das pessoas questionadas identificam como um entre três dos seus provérbios mais escutados: “Santo de casa não faz milagres” ou, em algumas regiões, “Santo de casa não opera milagres”, que são exatamente a mesma coisa.

 

“Como Fazer Desenvolvimento Local, Endógeno, numa região em que Santo de Casa Não Faz Milagres?”
 
5 -  Redesenhar o Modelo Mental Nordestino

 

O Instituto de Assessoria para o Desenvolvimento Humano (IADH) vem trabalhando, depois dessas reflexões, com a Metodologia GESPAR, como já é conhecido do mundo do DL, mas mais recentemente com a preocupação de, em todas as fases do processo, estar atento para identificar as barreiras construídas a partir dos modelos mentais inibidores do protagonismo.

- A primeira coisa a fazer é levar as pessoas a identificarem seus modelos mentais e as conseqüências nas suas vidas;

- Em seguida, desenvolver um processo de redesenho de seu argumento de vida e trabalhar uma condição psicológica, com autorização para assumir seu próprio destino;

-  Trabalhar a mudança a partir de dados observáveis, fazendo um acompanhamento com reflexões e reforços voltados para a ação.


“Trazendo Luz às Crenças Que Limitam nossas Organizações”